Na contramão da predominância masculina nos espaços de poder, a deputada estadual Iracema Vale (PSB) ocupa um lugar histórico na política do Maranhão. Enfermeira de formação, ex-prefeita de Urbano Santos e deputada mais votada do estado em 2022, com 105 mil votos, Iracema é a primeira mulher a comandar a Assembleia Legislativa do Maranhão (Alema) em quase 200 anos de existência da Casa.
Seu nome aparece em um levantamento publicado pela Folha de S.Paulo nesta segunda-feira (6), que revela que apenas três das 26 Assembleias Legislativas estaduais brasileiras são lideradas por mulheres. A matéria destaca o paradoxo da sub-representação feminina nos cargos de comando, apesar do avanço na presença de mulheres na política institucional.
Eleita por unanimidade para o biênio 2023-2024, Iracema adota um estilo de liderança discreto e firme, sem o perfil autoritário que ainda marca parte do comportamento de políticos homens em cargos de comando. Mesmo assim — ou justamente por isso — enfrentou resistência nos bastidores da política local.
Durante sua reeleição para o comando da Alema, parte da oposição ao governo tentou barrar sua continuidade na presidência. A movimentação, silenciosa nas redes e na imprensa à época, revelou uma série de ataques velados à sua trajetória, muitos deles marcados por misoginia e preconceito. Fontes ligadas ao Legislativo relataram comentários depreciativos sobre sua origem no interior do estado e sua condição de mulher, como se liderar o parlamento maranhense exigisse um “currículo de testosterona”.
Natural de São Luís, filha de taxista e professora, mãe de dois filhos, Iracema construiu uma carreira longe dos holofotes do poder tradicional. Foi vereadora e prefeita por dois mandatos em Urbano Santos, município de pouco mais de 35 mil habitantes a cerca de 270 quilômetros da capital. Sua trajetória é um exemplo de ascensão política pautada pela consistência, respeito e trabalho de base.
Ao comentar os desafios de liderar uma Casa Legislativa sendo mulher, Iracema reforça o que a reportagem da Folha ouviu de outras duas presidentes de Assembleias: há peculiaridades em ocupar um espaço majoritariamente masculino. A diferença é que, no Maranhão, essa peculiaridade se transforma em resistência cotidiana diante do incômodo que sua presença causa em setores acostumados a se ver no topo.
O caso de Iracema Vale é mais do que uma exceção estatística: é um exemplo de que é possível redesenhar a política com outras referências de liderança.

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